sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Desapego de memórias

A estação de rádio que perambulava por meus ouvidos anunciava o horário de zero horas e cinquenta e oito minutos. A angustia transbordava pela cama como uma serpente pronta para o bote, mas os problemas foram mais rápidos e já a possuía de corpo e alma.
Respirava em profundos suspiros, sempre a espera de que fosse o último, porém nunca tinha o desejo alcançado. A garganta alertava: a panela de pressão havia voltado. Guarde tudo com você, sempre com você. Deixe explodir internamente, deixe acontecer como deve acontecer sem medir seus resultados. Não vale a pena ser ajudada se em troca obtêm um sofrimento ainda maior. Se for esse o caso, almejo morrer na barreira doentia que criei a encarar todo esse processo novamente.
Não há culpas nesse lance todo. O que veio fácil irá embora fácil, como lhe havia dito indiretamente alguns veteranos que falavam de assuntos totalmente divergentes aos pensamentos que rondavam seu coração. A culpa e a consciência pensavam como bigornas sobe seu corpo de algo que nada havia feito. Como poderia dar-lhe o sol se tudo o que tinha a oferecer era uma continuidade infinita de chuvas gélidas? Sim, enfim compreendia.
Precisava fechar os olhos, suicidar parte de si. Parte esta que a deflorava pouco a pouco uma escarlate ferida. Uma banheira imaginária, com água morna e gritos mudos, seria a representação simbólica ideal para tal ocasião. Um sorriso de falsa sensação de lazer saiu de sua boca. Até em momentos importantes conseguia ser mentirosa consigo mesma. Não merecia o pouco que conquistou, afinal, todos os castigos que lhe são dadas as provas nunca iriam ser o suficiente para o ser humano repugnante que havia se tornado. Era digna de toda a vergonha alheia e olhares tortos que sempre recebeu desde a infância. Todos sabiam quem eu seria no futuro, creio nisso.
Não consigo mais chorar. Não, eu não sou digna nem mesmo de um choro. Borboletas costumam ser tachadas na poesia como flores que o vento leva por aí. Talvez eu seja uma borboleta. Uma borboleta "corrompida" pelo mundo.
Enfim o momento chegou, voltar as velhas estações de rádios ou simplesmente desligá-lo de uma vez. Sem dúvidas dessa vez. A madrugada prossegue sua caminhada por um novo capítulo que aguardo sem dormir ansiosamente. Termino aqui como a noite cede seu espaço para o dia, em busca apenas de que em novos patamares possa se viver entre as estrelas em um profundo desapego de memórias.

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Yoo...