sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Banhar-se

O chão estava gelado abaixo dos pés descalços. A roupa escorrida por todo corpo até chegar aos pés, onde chutou-os para um canto qualquer do banheiro. A porta estava fechada e podia ouvir o som abafado do vizinho que, milagrosamente, continha um repertório de "O Segundo Sol" da Cássia Eller.
Abriu o box, sentindo a tensão doer-lhe toda a musculatura de seu corpo. Suspirando, abriu o chuveiro ao mesmo tempo em que tornava a fechar o box. A água quente lhe acertou os ombros em cheio descendo por todo seu corpo ali. Sentiu, como de forma instantânea, seus ombros relaxarem aos poucos. Os olhos fecharam-se pesadamente enquanto que as pernas fraquejavam em um resmungo calado de não poderem relaxarem de fato.
Molhou vagarosamente uma bucha e a banhou de sabonete com cheiro de rosas ou lavandas, tão suaves no ambiente graças ao vapor que embaçava o espelho. Esfregou a face, os ombros, braços, busto, barriga, intimidades, coxas, pernas até os pés. Usava uma força misturada a suavidade e delicadeza. Sentia-se ficar limpa assim que a água novamente beijava-lhe o corpo, tendo suas impurezas irem embora ralo a baixo junto a tudo que lhe fez mal hoje, cada pensamento negativo e traiçoeiro.
Ainda usando a bucha, a encheu de água e espremia a mesma na base da nuca. A água lhe escorria pelas costas lentamente dando um misto de arrepios e relaxamento, retirando por alguns segundos todas as dores que sentia por cansaço. Repetiu o processo por mais algumas vezes, sendo agora acompanhada de solitárias lágrimas que pingavam na poça abaixo de si. Para cada gota que chovia ali, era um pensamento destrutivo que tinha sobre si. Pior que se ferir externamente é baixar a própria autoestima por si mesmo.
Os cabelos, enrolados e presos de qualquer jeito por uma piranha qualquer todo arrepiado devido ao vapor, encontrava-se já úmido e desgrenhado. Desligou o chuveiro aos poucos, batendo a testa com força no azulejo gelado. Sua costas recebia gotas restantes do chuveiro.
Tendo-se por vencida, enrolou-se numa toalha e enxugou-se sentindo todo o peso nos ombros voltar gradativamente. Secou as lagrimas, mesmo que as mesmas não quisessem cessar seu caimento. Vestiu-se com um pijama qualquer e ficou mais um tempo parada, fitando o vazio. Depois de se destruir mais um pouco, suspirou insatisfeita. Abriu a porta e saiu do comodo, lembrando-se de apagar a luz.

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Yoo...