quinta-feira, 4 de junho de 2015

Um dia qualquer

Era um dia qualquer de 1994, mas me recordo de que era março. O sol começava a anunciar que iria se por. Os carros não paravam um segundo de passar por aquela rua, afinal São Paulo só crescia a cada dia. Nesta rua qualquer, rodeada de prédios velhos, se encontrava o meu. Deplorável, diziam, talvez ainda caia sobre alguém. Pois que caia, eu pensava.
Estava encolhida no chão, observando de longe a sacada aberta. Meus cabelos escorriam sobre o meu corpo nu, molhados. Não sentia frio e muito menos calor, a brisa batia hora ou outra na cortina. Em meus dedos havia um cigarro e ao meu lado um cinzeiro acompanhado de uma garrafa de vinho meio vazio. Meus olhos ardiam pelo resto maquiagem que ali jazia, borrada e irritadíssima.
Inflava toda a fumaça para dentro e depois soltava em um suspiro. Estava entendiada, chateada. Quem se importa? me questionei. O rádio chiava uma música, talvez seja Elis Regina pela sonoridade da voz.
Eu gostava da Elis Regina, era aconchegante e doce, capaz de acalmar minha alma já morta. Era como um abraço de mãe, um presente de um pai e uma rosa de João. João... Sorri acanhada, olhando o céu já rosado e alaranjado. O único capaz de tirar de fato essa depressão. Me estiquei puxando um telefone vermelho do criado, girei alguns números e após chamadas pude suspirar mais fumaças.

_ Alô? João se encontra?


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Yoo...